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07 de junho de 2018, 22h04

Vai ter Copa! Vai ter graça?

Em seu blog na Fórum, Mouzar Benedito relembra fatos, situações e frases curiosas relacionadas ao futebol e Copa do Mundo

Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Nunca vi um período pré-Copa do Mundo de Futebol tão chocho. Faltando menos de dez dias para a abertura, não vejo ninguém empolgado. Só na televisão, tentam forçar a barra parecendo que está todo mundo ligadão no futebol.

Mas pode ser que pegue. Se a seleção brasileira jogar bem, as pessoas se empolgam. Resolvi fazer uns textinhos sobre futebol, mas não nas obviedades atuais: corrupção, uso político, estrelismo dos jogadores, a grana que rola… Vou lembrar algumas coisas do futebol, incluindo outras copas, mas sem aquilo do Garrincha perguntar se o técnico “combinou com os russos”. Só vou lembrar algumas coisas que coletei há muito tempo e em muitos lugares, e até publiquei algumas delas por aí. E para muita gente, não são novidade, são coisas manjadas. Lá vai.

1. Segundo os registros oficiais, quem introduziu o futebol no Brasil foi Charles Müller, filho de ingleses, que estudou na Inglaterra e chegou a São Paulo, em 1894, trazendo duas bolas de couro. Mas o futebol não foi levado de São Paulo para a Bahia, por exemplo. Foi o estudante José Ferreira, apelidado Zuza, que se formou na Inglaterra e chegou a Salvador em 25 de outubro de 1901, quem levou o futebol para lá, mas enfrentou resistências: aquela bola iria quebrar vidraças. Realmente, num jogo realizado no bairro do Rio Vermelho um chute maldado acabou resultando numa vidraça quebrada. Zuza reuniu amigos e fez o primeiro jogo no Campo da Pólvora. Em 1907, a Liga Bahiana de Sports Terrestres organizou o campeonato de “football” com quatro times: Bahiano de Tênis, Santos Dumont, São Salvador e Vitória. Aí já era no “Derby” (campo) do Rio Vermelho. Tudo no “football” era em inglês: refeere (juiz), keek-off (saída, início do jogo), goal (gol), goal-keeper (goleiro), half-time (em vez de primeiro tempo, primeiro half-time), corner (escanteio), score (resultado). O glorioso Ypiranga começou a disputar o campeonato baiano em 1913.

2. Em 1921, a Associação Bahiana de Cronistas Esportivos promoveu um torneio entre os clubes de Salvador, mudando o nome de gol para “furo”, e contabilizava-se também os corners (escanteios). No primeiro jogo, o Bahiano de Tênis (um “furo” e um corner) venceu o Santa Cruz (um corner). No segundo, o Fluminense (dois “furos” e dois corners) venceu o Ypiranga (3 corners). Participaram do torneio, além dos times já citados: Yankee, Botafogo, Nacional, Vitória, Internacional, São Bento, Associação Atlética e Sul-América.

3. A data tida como a do primeiro jogo de futebol no Brasil é 14 de abril de 1895, com ingleses residentes em São Paulo. O jogo entre São Paulo Railway e Companhia de Gás, promovido por Charles Müller, na Várzea do Carmo, terminou com a vitória do São Paulo Railway (em que Charles Müller jogava) por 4 x 2.

4. Uma moça ia sempre às partidas de futebol de várzea em que seu namorado jogava, em São Paulo, no início do século XX. Na época, as moças usavam luvas, e ela tirava as luvas durante os jogos, mas ficava nervosa e expressava esse nervosismo torcendo as luvas. Um jornalista viu, fez matérias sobre “a torcedora” e assim a palavra torcedor ganhou o sentido atual.

5. Alcebíades Magalhães Dias, o Cidinho, era juiz de futebol em Belo Horizonte. Torcedor fanático do Atlético, foi apitar o jogo entre seu time e o Botafogo do Rio, em 1949, e quando uma bola saiu pela lateral, ele falou para o jogador Afonso, do Atlético: “É bola nossa”. Ficou conhecido como “Juiz Bola Nossa”.

6. Logo depois de se candidatar a sede da Copa do Mundo de Futebol de 1962, o Chile sofreu um dos mais terríveis terremotos. Havia dúvida se o país seria capaz de realizar a Copa, e o presidente da Federação Chilena de Futebol fez um apelo: “A Copa do Mundo tem que ser realizada no Chile, porque não temos mais nada”. Dois estádios novos foram construídos rapidamente, e o Brasil foi bicampeão, com Garrincha mostrando sua genialidade.

7. A TV Record, em São Paulo, segunda emissora a funcionar no Brasil, foi inaugurada em 27 de setembro de 1953, às 20 horas, com “Um cordial boa noite”, dos apresentadores Sandra Amaral e Hélio Ansaldo. A Record se notabilizou, principalmente, pelos festivais de música na década de 1960. Foi, também, a primeira emissora a fazer a transmissão de um jogo de futebol, ainda na década de 50.

8. Leônidas da Silva, jogador de futebol que inventou a bicicleta (claro, a bicicleta do futebol, não o veículo – embora os chilenos digam que foi um chileno quem fez isso) era conhecido também pela elegância. Jogou um tempo no Peñarol, no Uruguai e voltou para o Brasil em janeiro de 1934, vestindo um terno de palha-seda, gravata e sapatos brancos… Seu apelido, “Diamante Negro”, virou nome de um chocolate que existe até hoje.

9. O maior goleador de uma Copa só foi o francês Fontaine, que em 1958, na Suécia, marcou 13 gols… Quer dizer, francês entre aspas: ele nasceu no Marrocos. Era filho de um funcionário francês.

10. Na Copa do Mundo de 1970, no México, em que a seleção brasileira foi considerada uma das melhores de todos os tempos, e tornou-se tricampeã, todos os atletas jogavam em times brasileiros. O time que mais cedeu jogadores para a seleção foi o Santos (Pelé, Edu, Clodoaldo e Joel). Duas equipes cederam três jogadores: Cruzeiro (Tostão, Piazza e Fontana) e Botafogo (Jairzinho, Paulo César Caju e Roberto). Três cederam dois: Corinthians (Ado e Rivelino), Palmeiras (Leão e Baldocchi) e Fluminense (Félix e Marco Antonio). Cederam um jogador as equipes do Flamengo (Brito), São Paulo (Gerson), Atlético Mineiro (Dario), Grêmio (Everaldo) e Portuguesa (Zé Maria).

11.Alguém acha que é possível juntar cinco jogadores que em seus respectivos times jogam com a camisa 10 e dar certo? Pois em 1970, deu: Pelé, Tostão, Gerson, Jairzinho e Rivelino eram camisa 10 no Santos, Cruzeiro, São Paulo, Botafogo e Corinthians.

12.Nessa Copa de 1970 houve um monte de novidades. Uma delas: o televisionamento direto para países de várias partes do mundo, inclusive o Brasil. Foram 50 países que receberam o sinal. Outra: permissão para substituir até dois jogadores durante a partida. Antes disso, se um jogador se machucasse, azar: jogava-se com um jogador a menos. Pela primeira vez foi criada uma bola especialmente para a Copa, pela Adidas. E para terminar, foi quando começou a se usar os cartões, em vez de fazer advertências verbais. O primeiro a receber um cartão amarelo foi o russo Lovchev, no jogo inaugural, conta o México. Nenhum jogador foi expulso nessa Copa.

13. Os locutores esportivos são cheios de chavões, e muitos comentaristas também. E seus palpites? Quando erravam, se justificavam: “O futebol é uma caixinha de surpresas”. Este é um chavão que acho que merece ser adaptado especialmente pelos comentaristas de economia. Erram quase sempre. Uma época, falavam da economia mexicana como um exemplo a ser seguido e ela foi logo pro beleléu. Depois vieram os “tigres asiáticos”. Na era do neoliberalismo iniciado por Meném na Argentina, diziam que o Brasil devia seguir o exemplo dele. E a Argentina deu uma afundada enorme. Não vou continuar citando exemplos. Só acho que os economistas e jornalistas especializados nisso deveriam seguir o exemplo dos cronistas esportivos e falar com toda a cerimônia: “A economia é uma caixinha de surpresas”.

14. Um técnico de um time de Itanhandu (MG) reuniu os jogadores no vestiário, antes de entrarem em campo, e falou sério: “Se a gente marcar um gol logo no começo e não deixar eles marcarem nenhum, nós ganhamos o jogo”.

Mas um outro técnico, de Porto Feliz (SP), foi ainda muito mais “profundo”. Disse aos atacantes: “Quando a bola bate no travessão e volta, o goleiro fica perdido. Então, se ficar cara a cara com o goleiro, chute no travessão, pra bola voltar pra você. Aí, com o goleiro perdido, você marca o gol”.

15. O jogador Eusébio, moçambicano no tempo em que seu país ainda era colônia de Portugal, foi o grande craque da seleção portuguesa na Copa de 1966, na Inglaterra. Quando chegou em Lisboa, contratado pelo Benfica, deu entrevista à imprensa e, como sempre, perguntaram a ele um monte de abobrinhas. Uma pergunta foi sobre qual era o seu marisco preferido. Respondeu com uma só palavra: “Tremoços”.

16. Dario, centroavante do Atlético Mineiro, tinha o apelido de Dadá Maravilha. Produzia frases de efeito que ficaram famosas. Naquela época, uma palavra da moda na imprensa era “problemática”. Usavam para tudo. Problemática na política, na economia, nos esportes… Numa entrevista, Dadá Maravilha sapecou: “Não me venha com problemática que eu tenho a solucionática”. Outra vez, depois de marcar um gol de cabeça parecendo ter parado segundos no ar, quando pulou, disse: “Só três coisas param no ar: beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha”.

Frases sobre futebol

Albert Camus: “O que, finalmente, eu mais sei sobre a moral e as obrigações do homem, as devo ao futebol”.

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José Lins do Rego: “O conhecimento do Brasil passa pelo futebol”.

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Millôr Fernandes: “O futebol é o ópio do povo e o narcotráfico da mídia”.

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Cristóvam Buarque: “O Brasil ficou entre os 8 melhores do mundo em futebol e ficou triste. É 85º em educação e não há tristeza”.

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Bill Shankly: “O futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais importante que isso”.

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Alfredo Di Stefano: “Marcar gols é como fazer amor, todo mundo faz, mas também ninguém o faz como eu”.

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Messi: “Eu me preocupo mais em ser uma boa pessoa do que ser o melhor jogador do mundo”.

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Claudiomiro, do Internacional de Porto Alegre, antes de um jogo em Belém do Pará: “Tenho o maior orgulho em jogar na terra onde Cristo nasceu”.

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Zanata (baiano, jogador do Fluminense): “Na Bahia todo mundo é muito simpático. É um povo muito hospitalar”;

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Nunes (do Flamengo): “A bola ia indo, ia indo… e iu”.

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Jardel (que jogou no Vasco e no Grêmio): “Eu peguei a bola e fui fondo, fui fondo, fui fondo e chutei no gol”.

Vicente Matheus (presidente do Corinthians, recusando proposta de franceses para compra ou empréstimo do jogador Sócrates): “O Sócrates é invendável e imprestável”.

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Vicente Matheus (sobre a versatilidade dos jogadores): “Jogador de futebol hoje tem que ser como o pato, que é um animal aquático e gramático”.

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Nelson Rodrigues: “Muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida. Não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”.

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Baiaco (considerado o melhor jogador do Bahia, e teve uma contusão antes do clássico contra o Vitória): “Comigo ou sem migo o Bahia vence”.

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João Pinto (do Porto, depois de marcar um golaço, com um chute com o pé esquerdo): “Não foi nada especial, chutei com o pé que estava mais à mão”.

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Há uns tempos, quando alguém tinha que trabalhar pra valer, chamava isso de “pegar no basquete”. Eu achava estranho. E brinquei: “Jogador de futebol, quando tem que pegar no basquete, mete os pés pelas mãos”.

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Gino Meneghetti, o grande ladrão: “Vem um sujeito de calcinha, dá um pontapé numa pelota e fica milionário. Isto é absurdo. Outro fica rico dando murro na cara do outro. São espetáculos que, para mim (…) o governo apoia, uma nova política para distrair o povo, como em Roma”.

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Barroso (do Sporting de Braga, depois de um jogo em que não foi tão bem): “Não deu pra fazer mais, estou de caganeira”.

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Garrincha (quando terminou o jogo Brasil 5 x 2 Suécia, em que a seleção foi campeã pela primeira vez, ao ver a turma comemorando): “Que torneio mixuruca, não tem nem segundo turno”.

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Termino com frases de Neném Prancha, carioca, botafoguense considerado um “filósofo do futebol”:

“Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava sempre empatado”.

“Se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária não perdia um”

“O pênalti é tão importante que devia ser cobrado pelo presidente do clube”.