Cid Benjamin

11 de fevereiro de 2019, 13h31

Venezuela: É preciso pôr fim ao impasse

Em sua coluna na Fórum, o jornalista defende que é preciso "pôr fim ao impasse que está jogando água no moinho da direita venezuelana". Ele acredita que a melhor saída é a proposta de eleições gerais sob supervisão internacional, apresentada pelo ex-presidente uruguaio Pepe Mujica

A situação da Venezuela está chegando a um ponto de não retorno. A continuarem as coisas do jeito que estão, o país vai para uma guerra civil. E, nesse cenário, com certeza haverá uma intervenção militar norte-americana. Ela provavelmente ocorrerá com a cobertura da OEA e a participação de governos subservientes, entre os quais o brasileiro, tal como ocorreu em 1965 na invasão à República Dominicana.

Uma intervenção militar estrangeira – possibilidade já admitida abertamente por Donald Trump – seria extremamente preocupante para a América Latina e para o Brasil. Empurrará a região ainda mais para a direita e o governo Bolsonaro para uma posição ainda mais subordinada aos Estados Unidos (se é que isso é possível).

A porta-voz do Ministério de Relações Exteriores da Rússia, Maria Zajárova, chamou semana passada a atenção para essa possibilidade, sustentando que os Estados Unidos já tomaram a decisão de intervir militarmente na Venezuela.

A Venezuela parece estar hoje rachada ao meio. Nicolás Maduro não tem o mesmo apelo popular de Hugo Chávez e está desgastado, por várias razões – algumas são consequências de erros cometidos pelos governos bolivarianos; outras, dificuldades criadas pelo boicote das classes dominantes locais e pela intromissão aberta do imperialismo.

O fato é que as dificuldades para a população no dia a dia hoje, que são muitas e entre as quais se destaca o desabastecimento, acabam debitadas na conta de Maduro. Afinal, o cidadão comum quer viver em paz e é natural que, para ele, caiba ao governo a resolução dos problemas.

Mas, se Maduro errou muito e paga por seus erros, não se pode falar na existência de uma oposição democrática na Venezuela, Ou, se ela existe, é minúscula e está a reboque da extrema-direita golpista. Esta última é quem dá as cartas, conforma o núcleo central da oposição e é composta por gente que tem os pés em Caracas, mas a cabeça teleguiada por Washington. É subordinada inteiramente aos Estados Unidos, que, mais uma vez, vestiram a fantasia de “campeões da democracia”, de olho no petróleo venezuelano. Já vimos esse filme no Iraque e na Líbia.

Hoje, na Venezuela, o objetivo do governo Trump é criar uma situação de duplo poder para, em seguida, atender a um pedido de intervenção feito por uma das partes – a direita – e entrar diretamente no jogo com força militar. Aliás, o autoproclamado presidente Juan Guaidó já afirmou que “não descarta” pedir uma intervenção militar norte-americana.

Guaidó não exige menos que a saída de Maduro. Este, por sua vez, sustenta a legalidade do processo eleitoral que o levou ao mandato que exerce e afirma que qualquer conversação tem que partir do reconhecimento deste fato.

De qualquer forma, o impasse é inegável, tende a se agravar e favorece a direita. Ela se fortalece com a deterioração do quadro e aposta no caos e numa saída de força com intervenção externa.

A oposição conta, também, com o crescente isolamento internacional de Maduro. E, pior, já não só governos submissos aos Estados Unidos – como o de Bolsonaro – reconhecem Guaidó. Mesmo o do Canadá e de países da União Europeia foram por este caminho.

No caso, importa menos se isso é justo ou injusto. É uma realidade.

Por isso, Maduro deveria cogitar a aceitação da proposta apresentada pelo ex-presidente uruguaio Pepe Mujica de realização de eleições gerais num prazo curto, sob a supervisão da ONU e de seu Conselho de Segurança.

Se ele fizesse isso poderia rachar o apoio à direita. E uma recusa de parte desta última seria difícil de explicar.

A esquerda poderia perder ou ganhar as eleições. Mas elas interromperiam um processo que, do jeito que caminha, não chegará a bom termo. Nem para o governo Maduro, nem para o povo venezuelano. Mesmo na hipótese de que a direita vença as eleições, com certeza certas garantias democráticas seriam preservadas.

Para os que afirmam que não ceder é questão de princípios e que se deve insistir na afirmação da legitimidade do governo Maduro como ponto da partida para qualquer negociação, vale lembrar um episódio ocorrido há pouco mais de cem anos.

Depois da Revolução Russa de 1917, era questão vital para a sobrevivência para o governo bolchevique a retirada do país da Primeira Guerra Mundial. Se não conseguissem a paz em separado, os bolcheviques não se sustentariam. Sabedora disso, a Alemanha fez exigências descabidas – incluindo pesadas indenizações e a anexação de territórios – nas conversações de paz de Brest-Litovski. O Partido Bolchevique se dividiu e até quadros da qualidade de Trostki propuseram a não aceitação das exigências do kaiser alemão. A revolução foi salva pelo realismo de Lênin e a sua capacidade de influência no partido e no governo. Ele, a duras penas, convenceu os bolcheviques a aceitarem as condições alemãs. E a revolução foi salva.

São situações históricas distintas, mas vale o exemplo. Ainda que a eleição de Maduro tenha sido legítima, essa discussão já não é a mais importante. É preciso pôr fim ao impasse que está jogando água no moinho da direita. A melhor saída para tal é a proposta de eleições gerais sob supervisão internacional.

E já.