07 de novembro de 2018, 17h44

Victor Amatucci: As fake news seguirão pautando eleições

O uso de páginas falsas para disponibilizar conteúdos falsos, aliado com o uso de perfis falsos para impulsionar organicamente as publicações e enganar os robôs do Facebook apenas começam o trabalho de espalhar a notícia para as vítimas

Foto: Lula Marques/Divulgação

Por Victor Amatucci*

Metade dos eleitores que usam o WhatsApp dizem acreditar nas notícias que recebem pelo aplicativo, segundo pesquisa do Datafolha. O levantamento foi feito nos dias 24 e 25 de outubro de 2018, véspera do 2º turno das eleições no Brasil.

O fenômeno das fake news – notícias falsas com linguagem jornalística – ficou amplamente conhecido com a eleição de Donald Trump em 2016 .

O uso dos metadados pela Cambridge Analytica para construir o perfil dos eleitores americanos foi a base para a produção das notícias falsas. A construção baseada num perfil psicossocial tem muito mais poder de convencimento que qualquer credibilidade de um veículo de imprensa.

Nos EUA, o uso foi a combinação entre um sentimento de descrença na mídia tradicional (alimentado pela própria mídia) com uma profusão de sites e páginas no Facebook, o que fazia qualquer busca no Google cair em um site da própria rede de Trump.

O grande problema da combinação entre metadados e as notícias fabricadas é que o roteiro segue um script feito para acionar gatilhos mentais que o leitor e a leitora raramente se dão conta.

Há algum tempo, já se discute o fenômeno da bolha de informações. Tanto Facebook quanto Google são empresas voltadas à propaganda, seus mecanismos exploram meios de entregar a você não a informação mais relevante, mas a informação que mais o conforta.

Um exemplo simples: o Facebook distribui a você publicações de pessoas com as quais você mais interage. Isso significa que você terá muito mais informações de pessoas com as quais já tem alguma proximidade, seja afetiva, ideológica ou de outro tipo. Isso não implica apenas em se afastar de quem pensa de forma diferente, mas em se “proteger” de informações conflitantes com aquilo em que você acredita.

O mesmo fenômeno pode ser observado no Google através de buscas simples. Faça uma busca pelo seu celular pela palavra Lula e veja o resultado. Depois pegue o celular de um chef de cozinha e faça a mesma busca.

E esta bolha ideológica reforça certezas que nem sempre são reais. Isso também favorece o comportamento de ‘querer fazer parte do grupo’, aquele mesmo de Vida Líquida, de Zygmunt Bauman, o que significa ter inúmeras notícias sendo compartilhadas sem necessariamente terem sido lidas ou interpretadas com mais atenção.

Junte esse fenômeno à compreensão do seu público alvo através dos metadados e temos um ambiente perfeito para a proliferação de notícias falaciosas.

Racionalmente é difícil entender como 15% do eleitorado brasileiro acreditaram que Fernando Haddad – candidato à presidência – defende o incesto. Assim como é quase inacreditável que boa parte do eleitorado norte-americano tenha acreditado que Hillary Clinton possuía uma gangue que promovia sexo com crianças em uma pizzaria de Washington.

Para qualquer análise racional de uma notícia ou fato é preciso que se suspenda mentalmente, ainda que momentaneamente, uma camada de preconceito ou pré-suposições já colocadas.

Uma análise recente de Colleen Seifert, professora de Psicologia da Universidade de Michigan, explica que as conexões automáticas pré-existentes nos leitores são dos aspectos mais relevantes para reforçar uma fake news. O mesmo estudo sugere que a credibilidade se dá também pela quantidade de vezes que a pessoa é exposta à mesma manchete.

O uso de páginas falsas para disponibilizar conteúdos falsos, aliado com o uso de perfis falsos para impulsionar organicamente as publicações e enganar os robôs do Facebook apenas começam o trabalho de espalhar a notícia para as vítimas. O preconceito ou visão ideológica existente faz com que a falsa notícia seja compartilhada com centenas de milhares de pessoas reais.

E no Brasil?

No Brasil, o fenômeno foi aperfeiçoado com o uso do WhatsApp, durante a eleição de Jair Bolsonaro. A mesma pesquisa do Datafolha mencionada acima concluiu que esta é a rede social mais usada pelos eleitores brasileiros. Entre os eleitores de Bolsonaro, 70% estão conectados ao aplicativo, número distante dos 59% dos eleitores de Fernando Haddad, candidato derrotado no 2º turno.

Logo no início da disputa eleitoral, Bolsonaro foi ao Jornal Nacional conceder entrevista e levou consigo um livro, que, segundo ele, fazia parte de um “kit gay” promovido por Haddad quando ainda era Ministro da Educação.

A afirmação, como se sabe, é falsa. Todos os envolvidos, incluindo a editora que promove o livro, afirmaram que nunca foi parte de kit nenhum. No entanto, na última pesquisa eleitoral, 36% ainda acreditavam na falsa informação.

Não é por acaso. O foco da campanha de Bolsonaro era um eleitorado conservador, religioso e que já tinha pré-disposição a entender que o PT é um partido comunista, que promove sexualização de crianças e incesto.

Centenas de páginas foram excluídas no Facebook, outras centenas de contas no WhatsApp foram bloqueadas e o jornal mais vendido do país denunciou um suposto esquema de produção e profusão de fake news como a do tal livro.

Bolsonaro foi eleito com 55% dos votos, a Folha de São Paulo vem sendo ameaçada constantemente por Bolsonaro e seus correligionários. E 35% dos eleitores (não só de Bolsonaro) acreditam que a revista Veja e o jornal Folha de S.Paulo receberam milhões para maldizer o deputado (agora presidente eleito).

E se os argumentos e provas não são capazes de desmentir as criações, a justiça também não tem e não terá celeridade para conter os danos. É preciso, e disso não há dúvidas, ouvir todos os lados antes de qualquer condenação, algo moroso, especialmente quando se trata da Justiça brasileira.

Enquanto o processo corre, outras centenas de falsas notícias são criadas e mesmo que se consiga fechar a fábrica, as ideias já foram reforçadas para os eleitores, que podem repassá-las adiante, fazendo com que “uma mentira contada mil vezes se torne verdade”.

É pouco provável que se consiga combater o método. Muito mais razoável (embora igualmente reprovável) é crer que mais fábricas sejam criadas, dando um ar mais democrático às lendas que se criam.

Quem perde com isso? Candidatos que não se submetem a esta tática criminosa e por isso saem em desvantagem na corrida eleitoral. As grandes empresas de mídia, que perdem credibilidade e influência. E o país, que não discute propostas.

*Victor Amatucci é editor do Blog ImprenÇa – {{não acredite em mim}}