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25 de abril de 2018, 17h09

“Vingadores: Guerra Infinita” é o maior épico cinematográfico desde “O Senhor dos Anéis”

Assistimos a pré-estreia de “Vingadores: Guerra Infinita”. A análise traz uma avaliação dos méritos do filme e sua relação com nosso contexto social. Os spoilers são poucos e estão marcados no texto

Com a popularidade dos filmes de super-herói, a indústria cinematográfica passou a produzir filmes híbridos a partir do gênero em busca tanto do público novo quanto da manutenção do público tradicional. Se inicialmente os filmes continham elementos apenas dos filmes de ação, com a esporádica donzela a ser salva, o que se deu em seguida foi uma exploração da mistura com outros gêneros do cinema. “Homem de Ferro” introduziu a ficção científica, “Batman: O Cavaleiros das Trevas” a política, “Capitão América” a guerra, “Guardiões da Galáxia” o humor e a nostalgia, “Os Incríveis” a família, “Deadpool” o humor, “Mulher Maravilha” a questão de gênero, “Pantera Negra” a identidade racial, etc, etc. Nestes híbridos de super-herói, faltava ainda estranhamente o gênero mais ligado no cinema e na literatura aos mundos fantásticos: o épico. É esse lugar, praticamente desocupado desde “O Senhor dos Anéis”, que “Vingadores: Guerra Infinita” vem ocupar.

(A partir daqui, há algumas revelações de enredo não específicas)

Os elementos mais característicos do épico fantástico no cinema aparecem bem amarrados neste terceiro filme da saga dos Vingadores, ao contrário de muitos outros filmes de super-herói que apenas emprestam elementos de outros gêneros, sem realmente incorporá-los em um conjunto coeso. (A coluna da semana passada tratou justamente desta tendência). Não é o caso deste filme que sabe se utilizar dos recursos dos dois gêneros criando um novo, híbrido, mas autônomo e funcional. Ele empresta do épico: trilha sonora que sem se distinguir ajuda a compor o clima da narrativa, elenco grande com personagens que têm história própria mas também ajudam a desenvolver o enredo principal, a busca por um objeto mágico (o Cálice Sagrado ou as Jóias do Infinito) ou uma arma (a Excalibur ou o Stormbringer, novo machado do Thor), o romance que é motor da narrativa e impele os personagens à luta (Tristão e Isolda ou o Visão e a Feiticeira Escarlate), relações filiais dramáticas e trágicas, batalhas campais entre exércitos rivais liderados por generais distintos, duelo entre guerreiros especializados (mago contra mago, assassina contra assassina), e por fim, morte, muita morte. Mas mortes, finalmente para este tipo de filme, não apenas de personagens genéricos ou secundários, mas de personagens que importam, que foram construídos durante a história, aqueles com os quais os espectador riu e se identificou e de quem ele no final, com surpresa, tem que se despedir. O sacrifício do herói, fundamental para o gênero.

A morte de personagens importante durante o filme é um dos seus méritos principais porque, apesar dos efeitos especiais e piadas, ele não é infantil. Trata-se de um filme que, como as boas obras, permite a presença da perda, do medo da morte e da dor do luto. A morte, elemento narrativo fundamental em qualquer tradição de ficção, como se sabe, é rara em filmes americanos de entretenimento. Quando acontece, se dá no começo do filme e é ou superada ou revertida. “Vingadores: Guerra Infinita” arrisca e acerta deixando os espectadores saírem do cinema em uma mudez inédita para filmes de super-herói. O filme tem a coragem de assumir as consequências tanto do sacrifício pela vitória, quanto dos espólios sofridos na derrota. Claro que na Disney-Marvel ninguém está queimando dinheiro ou abrindo mão de ativos tão preciosos em prol de “coerência narrativa”. Desde a Bíblia até a primeira morte do Super-Homem nos quadrinhos, já se sabe que só o que vende mais do que a morte do herói é sua ressurreição, três dias depois ou com o já anunciado próximo filme dos “Vingadores”, que deverá encerrar este ciclo narrativo do universo cinematográfico da Marvel.

Para terminar esta análise que não quer revelar muito do enredo, uma observação sobre o vilão que, apesar de todos os efeitos visuais, merece um elogio pela excelente atuação de Josh Brolin e pela sua construção delicada através do filme. Os filmes de massa mais bem-sucedidos geralmente revelam, muitas vezes de forma inconsciente ou camuflada, as preocupações sociais mais profundas do momento. São um tipo de negativo involuntário do espírito do tempo (daí, às vezes, sua análise crítica ter potencial de revelar tantas questões relevantes quanto a de uma obra dita “séria”). Thanos é o vilão do filme que quer destruir metade da população do Universo e que para isso precisa das “Jóias do Infinito” que, por grande azar dos terráqueos, encontram-se em grande parte por aqui. De uma perspectiva social externa ao filme, ele é um misto do vilão clássico, o déspota que ameaça a vida democrática e harmoniosa (em tempos de Donald Trump, golpes na América do Sul, reeleições intermináveis no Leste e ascensão do Fascismo na Europa), com o pavor de que um cataclisma ecológico elimine grandes massas da população do planeta. Thanos é um misto de ditador genocida com aquecimento global e isso faz dele um vilão instigante para a contemporaneidade.

Embora essa mistura pareça estranha à primeira vista, ela se torna mais reconhecível quando se compara o absurdo de sua estratégia no filme com a mesma estratégia que os grandes atores globais usam hoje em dia para pensar a questão das mudanças climáticas. A legítima preocupação de Thanos com o limite de recursos naturais para uma população perigosamente crescente encontra no genocídio uma solução que, no fim das contas, é a mesma não dita, embora tolerada, pelo lobby petrolífero que domina as políticas energéticas. É mais fácil ignorar as tragédias humanitárias presente e futuras causadas pela escassez de água e aumento acelerado no preço dos alimentos, ambos resultado direto do aquecimento global causado pelo efeito estufa, do que reduzir o consumo e diminuir o lucro. Essas tragédias futuras parecem tão inevitáveis quanto a convicção de Thanos em seu plano “misericordioso”. Trata-se, para as vítimas, da diferença entre a morte pela ação ou pela passividade do algoz, ou seja, é irrelevante.