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17 de setembro de 2018, 17h34

Violência, Deus e irracionalidade: uma receita para se fazer um auditório estúpido

As pessoas estão muito mais apaixonadas pela estética da fala que pelo seu conteúdo. Esse auditório, que sofre com a violência urbana, não tem nenhuma visão do programa político de seu candidato

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“Tu amas ser enaltecido e enganado, sempre escutando os faladores de boca aberta”, disse uma vez Aristófanes. Os gregos possuíam um verbo para designar os atenienses estúpidos reunidos para a deliberação: chainein. Trata-se do ouvinte passivo, aquele que adorava ser enaltecido, especialidade de Cleon, demagogo que se dedicava a elogiar as multidões.1

Os gregos entendiam o silêncio do auditório não como uma virtude, uma espécie de escuta inteligente e fecunda, mas como a rejeição impotente ou a estupidez de um público de espectadores. Tucídides preveniu aos atenienses que não se comportassem como um público de teatro, “sentados a ouvir injúrias pessoais”, perante a eloquência política.

E nessas eleições somos vítima da estupefação do auditório. Aduladores de fazendeiros, de empresários e das forças armadas. A população se sensibiliza com a eloquência violenta, carregada de soluções prazerosas por valorizarem a tortura e que bajulam o “cidadão de bem”. Lembra os versos de Sólon que acusavam os atenienses de serem demasiadamente sensíveis às falas vazias de Pisístrato: “Vocês são apenas olhos para a língua e para as palavras de um homem hipócrita e, para o ato que ele prepara, vocês não têm nenhuma visão”.

As pessoas estão muito mais apaixonadas pela estética da fala que pelo seu conteúdo. Esse auditório, que sofre com a violência urbana, não tem nenhuma visão do programa político de seu candidato, quer apenas ouvir uma retórica imponente, com gestos e mímicas em um jogo de expressões agressivas nas quais o rosto mostra-se demasiadamente severo representando a solução do problema que mais o assombra: a violência.

A violência é excitante porque desde os primórdios foi uma forma de sagrado. Os rituais de sacrifício de sangue esteve presente nas mais variadas religiões do mundo e, segundo a bióloga Barbara Ehrenreich, estão estritamente ligados às origens da guerra. Como dizia Bakunin: “Todas as religiões são cruéis, todas envolvem sangue, já que tudo se baseia principalmente na ideia de sacrifício”. Por isso, não devemos ficar surpresos com a adesão religiosa ao discurso político violento.

Exemplo do poder inebriante dessa eloquência que encanta pela violência contra alguma coisa pode ser visto no relato do psicólogo inglês Roger E. Money-Kyrle que participou de um comício de Hitler: “Aos poucos, as pessoas pareciam perder sua individualidade e se fundirem num monstro não muito sagaz mas imensamente poderoso, pouco racional e portanto capaz de fazer qualquer coisa”.2

Como no teatro grego, esse auditório adora ouvir “injúrias pessoais” e não se importa se o candidato irá arrancar os seus direitos, se irá continuar a política econômica do governo que tanto detesta, se promoverá o desmatamento e o uso de agrotóxicos nos alimentos, ele só quer se satisfazer com a força e a beleza das palavras. É a “escuta-olhar” como apontou Sólon sobre Pisístrato, ao invés de olhar os fatos e de escutar as falas, utiliza-se os olhos para não ouvir. Mais uma razão para a febre dos memes.

Portanto o discurso político apela um afeto social que promove uma identificação: “o cidadão, mediante um processo irracional, funda sua identidade na do político”, explica Patrick Charaudeau. O medo da violência leva as pessoas a agir irracionalmente. A agir “por meio de imaginários que atribuem valores positivos e negativos”.3

Para tal temos que ter em mente que a violência cotidiana é sempre uma forma de manter a reputação. Os pais batem nos filhos para manterem a reputação de pais, o marido bate na mulher com o mesmo objetivo, o branco que caçoa o negro e o índio, o professor que grita como aluno etc.. Todos querem manter a reputação. Por isso o moralista se pauta na violência, já que a reputação nada mais é do que um elemento dos valores, dos costumes.

Portanto, a violência é usada para construir eleitores estupefatos. Tanto a violência real a qual se demoniza alienadamente, quanto a violência da fala que provoca paixão e arrepio, silenciando todos os outros aspectos da vida pública (educação, saúde, moradia etc.). Ela o faz regredir a Idade Média quando os vassalos faziam um acordo com os senhores feudais: fidelidade em troca de segurança. Torna-se homem de alguém, servo, aceitando tudo que faz em troca de proteção.

Precisamos tomar muito cuidado para não nos tornarmos estúpidos. Para tal é necessário ouvir com os ouvidos, sem nos deixar inebriar pelo prazer que o espetáculo da violência (vide o sucesso dos filmes de Hollywood e os torneios de MMA) promove.

 

1 MONTIGLIO, Silvia. Falar em público e ficar em silêncio na Grécia clássica. In: COURTINE, J-J E PIOVEZANI, C. (orgs.). História da fala pública. Petrópolis: Vozes, 2015.

2 EHRENREICH, Barbara. Ritos de sangue: um estudo sobre as origens da guerra. Rio de Janeiro: Record, 2000. p. 24

3 CHARAUDEAU, Patrick. Discurso político. Trad: Fabiana Komesu e Dilson Ferreira da Cruz. São Paulo: Contexto, 2006. p. 137.