Colunistas

02 de março de 2018, 21h38

As visões conservadoras e progressistas das animações hollywoodianas

"É de extrema relevância observar as posições da indústria cultural perante nossas relações cotidianas, definindo-as, e, massivamente, manipulando a nossa interpretação da vida". Leia mais no artigo do historiador Raphael Fagundes

Foram muitas as vezes em que aprendi algo a partir de um filme americano tolo.
Ludiwig Wittgenstein

O cinema global é sem dúvida fragmentado. “Os desenhos animados não se reduzem mais a seu público infantil, mas se dirigem aos adultos”1, dizem Gilles Lipovetsky e Jean Serroy. “Dos 8 aos 80” foi a frase usada por um produtor americano (Wangler) que, segundo Jean Bernardet, consiste no fato de que um “filme deve conter ingredientes suscetíveis de agradar ao público dos 8 aos 80 anos”.2 Um filme não pode se dar ao luxo de desprezar nenhum consumidor em potencial.

Duas representações falsificadas

“Meu malvado favorito 3” sabe trabalhar perfeitamente essa questão. As crianças se encantam com os minions, enquanto os adultos se identificam comicamente com os elementos dos anos 80. O programa de malhação na TV, o mal vindo do mar – como nas séries japonesas de grande sucesso -, o ioiô, enfim. Entretanto, o mais curioso vem à tona quando, provocativamente, descreve-se um homem afortunado – irmão de Gru, personagem central que deixa de ser um vilão para se tornar um agente secreto – detentor da maior criação de porcos da Itália. Talvez simbolize a riqueza proveniente da sujeira, pois, na superfície do enredo, a principal questão é a caricatura de um homem que deseja sentir nas veias a adrenalina de realizar um ato criminoso. E, provavelmente querendo trazer à tona a perspectiva rebelde, a cena em que policiais montam em porcos, resgata a relação clássica entre a polícia e o animal que representa a imundície desde os primórdios da cultura judaica, arrancou gargalhadas do público.

A animação retrata a Europa e o europeu rusticamente, enquanto que o americano aparece abarrotado de aparatos modernos e tecnológicos. Uma maneira de cultuar a superioridade americana e seu foco no futuro. Os europeus também são delineados como um povo que se prende ao passado e às suas tradições, vislumbrados ainda com suas lendas medievais que na América encanta apenas criancinhas. Um pensamento que não condiz com a realidade se levarmos em conta a Alemanha e outros países do Velho Mundo com grande investimento em tecnologia.

No entanto, o aspecto mais ideológico do filme está no contorcionismo que alguém precisa fazer para manter o emprego e gerir a família. Esse é o fardo do homem, o pai de família ideal. A mulher, por outro lado, usa suas habilidades para salvar a imagem materna. Embora seja uma mãe capaz de fazer o mesmo que um homem (inclusive, o salva nas missões perigosas), um olhar, diga-se de passagem, que não põe fim ao olhar masculino, apenas troca a mulher pelo homem, o foco é a conquista das meninas. Antes, os filmes retratavam “o impasse da autoridade paterna e sua restauração”3, como nos clássicos de Steven Spielberg, analisados por Slavoj Zizek. Hoje, a postura e as questões antes atribuídas ao homem são transferidas para a mulher. Não há rompimento com a estrutura de dominação masculina, apenas a inversão dos papéis. A essa posição masculina da mulher, fenômeno que se tornou moda nos filmes hollywoodianos, há várias críticas feministas contundentes.4

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É muito comum nos filmes da Disney a revolta do jovem contra a tradição familiar em nome da realização dos sonhos individuais. Essa indústria de desenhos animados tem o objetivo de “ensinar papéis, valores e ideais específicos”. O objetivo é liberar o indivíduo das tradições para transformá-lo em um ser global, livre para o consumo.5 Mas “Viva”, animação que aborda a festa dos mortos mexicana, trouxe uma inovação nesse aspecto. Trata-se de uma revolta travada contra a memória, não contra a tradição.

O sociólogo Maurice Halbwachs nos ensina que a memória individual é consequência da maneira como o grupo, no qual se está inserido, recorda. Nunca se lembra sozinho. O modo pelo qual os outros lembram, as histórias e recordações que contam, vão interferir diretamente na maneira que um indivíduo resgata as suas lembranças. Porque “outros homens tiveram essas lembranças em comum comigo”.6 Ela permite a coesão da comunidade por meio do afeto. No entanto, a memória é mutável, porque a partir do momento que ela é questionada (pelo ponto de vista do presente), o julgamento que se faz dela se transforma.

Contudo, há também o mau uso da memória, a partir do momento em que é coercitiva; quando se obriga a lembrar de uma maneira específica, excluindo as novas gerações desse processo (o que ocorre no filme). Esse fenômeno acontece repetidas vezes com a manipulação da memória para fins políticos. Não é o que o “politicamente incorreto” quer ao “reformular” a memória coletiva? Um ponto de vista que ridiculamente quer se tornar um método de análise desmoralizando a luta dos negros e indígenas, exaltando a ditadura e isentando a imagem exploradora das classes dominantes? Recordar dessa maneira, irá interferir diretamente nas nossas lembranças individuais, de modo a ver tudo que passou, as coisas que fizemos parte, por outros olhos.

O ponto negativo da animação (o mal uso da memória), na minha opinião, está na maneira pela qual Frida Kahlo é retratada. Manipula-se sua memória relacionando-a à ideia de arte pela arte, quando na verdade, a artista mexicana era uma militante comunista. Na animação, ela trabalha para o vilão da história, ou seja, não fazia a mínima ideia da finalidade da arte que produzia, exatamente como um trabalhador alienado. Ou – o que pode parecer um devaneio interpretativo para alguns -, a animação está interessada em representar a artista como uma pessoa que realmente trabalhava para vilões, já que era comunista. De qualquer forma, a memória que se quer passar da principal referência artística do México, não é, de modo algum, inocente.

Entre o progressismo light e o radical

O “Touro Ferdinando” me fez pensar no que diz Bourdieu em “A Dominação Masculina”: “a força da ordem masculina se evidencia no fato de que ela dispensa justificação”.7 Sendo assim, o touro, símbolo da masculinidade e da virilidade, desde os tempos antigos, resolve se libertar do padrão. Questiona o que é habitual, o que não precisa mais ser justificado. Ninguém via sentido no fato de ele não querer ser um touro de arena, já que um homem (touro) nasceu para ser viril.

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Cabe lembrar que o estudo da bióloga Barbara Ehrenreich aponta uma ligação direta entre a guerra e a virilidade. “Em outras palavras”, diz a autora, “a guerra e a agressividade masculina têm sido empreendimentos culturais que se reforçam”.8 Por outro ponto de vista, psicanalistas afirmam que a fêmea sempre foi o motivo de todas as querelas viris.9 Quem não lembra de Tróia? No seu romance, “A mão esquerda da escuridão”, Ursula K. Le Guin descreve uma sociedade, em um planeta muito… muito distante onde não havia diferença entre gêneros. Todos eram andróginos e, portanto, não havia guerra. O filme retrata o touro que vai à arena, de forma bastante similar ao soldado que vai à guerra, que nasceu programado para defender sua pátria.

Por outro lado, efeminar o homem era uma maneira de torná-lo inferior. Efeminar era humilhar. Na Grécia Antiga, por exemplo, o banho quente era para fracos e, no século XIX, chorar em público se tornou algo para frouxos (ambos eram práticas aceitas se realizadas por mulheres).

O touro Ferdinando se nega a lutar, e desde o início, a razão é bem simples: o desejo de fazer o que quiser. O fato de o jovem Touro ser apaixonado por rosas, é um símbolo para a sua aversão ao padrão de virilidade. A rosa é o símbolo que nega sua masculinidade e, por conseguinte, a sua aptidão libidinal para a guerra. Por outro lado, negar a luta contra aqueles que queriam forçá-lo a ser viril não foi uma atitude totalmente reacionária. Se partirmos de uma perspectiva freudiana, podemos enxergar até mesmo uma pitada de revolução em tudo isso (embora saibamos que o objetivo da indústria cultural é vender uma liberdade pós-moderna, novaiorquina, onde não se está preso a nada, a não ser a ideia de desfrutar o que o mercado nos vende).

Se colocarmos os filmes aqui analisados em uma linha, sem dúvida, “As aventuras de Tadeo 2”, da Paramount Pictures, ficaria na extremidade oposta de todos os outros. Diferentemente do hipócrita “Carros 3” da Disney, onde o personagem principal, Relâmpago Mcqueen, se coloca contra a comercialização de si, mas no mundo real, produtos que carregam o seu nome são vendidos aos milhões para as crianças do mundo inteiro, e do “Meu malvado favorito 3” da Universal Pictures, machista por excelência, “As aventuras de Tadeo 2” é uma alusão direta ao trabalho alienado.

O jovem de barba rala é um trabalhador da construção civil que não gosta do que faz e se dedica aos livros, durante sua atividade laboriosa, para realizar o seu sonho: ser arqueólogo. Segundo Karl Marx, o trabalho alienado é a transformação do trabalho em trabalho forçado. Porque o trabalhador não trabalha para se realizar, mas é obrigado a se submeter a qualquer coisa para pagar suas contas. Não se interessa pelo que faz, apenas aguarda o salário no fim do mês. Trabalha-se, portanto, com um objetivo externo ao trabalho, não pelo trabalho em si. Desta forma, ele “nega a si mesmo, não se sente bem, mas, infeliz, não desenvolve livremente as energias físicas e mentais, mas esgota-se fisicamente e arruína o espírito”.10

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Porém, o bravo Tadeo, se liberta e corre atrás da realização do seu sonho. E, para tal, trava uma luta violenta contra um burguês (o vilão) que quer ter o poder do rei Midas da mitologia grega. Um burguês perfeito, pois é injusto, maquiavélico e trapaceiro, fazendo, assim, de tudo para obter o poder mediante a riqueza, transformando as coisas que toca em ouro.

Tirando todo o clichê hollywoodiano do romance com a arqueóloga bem sucedida, Tadeo pode ser identificado com o proletário que arranca os grilhões do trabalho forçado, através da dolorosa luta de classes, para se realizar como um arqueólogo que não se preocupa com o enriquecimento, mas com seu ofício em si. Mata o burguês e se livra da geringonça mágica do lendário rei grego.

Conclusão

Aqui selecionamos quatro filmes de forma proposital. Os dois conservadores adotam perspectivas diferentes. Um é mais grosseiramente reacionário, já o outro é bem mais sutil, atingindo com maior vigor os aspectos políticos da esquerda. Já em relação aos filmes progressistas, um aborda a questão identitária, uma bandeira levantada pela maioria esmagadora da esquerda e da própria direita social democrata. Já o outro, pode ser visto através de uma perspectiva mais radical, onde se evidenciam as lutas de classes e a emancipação do trabalhador.

A questão que se quer trazer à luz, é a necessidade crítica de enxergar um filme como um discurso, e um discurso só pode ser inocente em “sonho lírico”, como afirma Foucault.11 Sempre haverá uma intenção. A primeira instância de um discurso é a tomada de posição12, portanto, é de extrema relevância observar as posições da indústria cultural perante nossas relações cotidianas, definindo-as, e, massivamente, manipulando a nossa interpretação da vida.

1 LIPOVETSKY, Gilles & SERROY, Jean. A Tela Global: mídias culturais e cinema na era hipermoderna. Ed. Sulina, Porto Alegre: 2009. p. 17.

2 BERNARDET, Jean. O que é cinema? Rio de Janeiro: Brasiliense, 1990. p. 62.

3 ZIZEK, Slavoj. Em defesa das causas perdidas. Trad: Maria Beatriz de Medina. São Paulo: Boitempo, 2011. p. 75.

4 KAPLAN, Ann E. A mulher e o cinema: os dois lados da câmera. Rio de Janeiro: Rocco, 1995. p. 53.

5 GIROUX, Henry. Os filmes da Disney são bons para seus filhos? In: STEINBERG, Shirley; KINCHEOLE, Joe (Orgs). Cultura infantil: a construção corporativa da infância. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.

6 HALBWACHS, Maurice (1877-1945). A memória coletiva. São Paulo: Vértice, 1990. p. 27

7 BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. 2 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. p. 18.