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09 de dezembro de 2018, 11h58

Vitória de Bolsonaro abre um novo período histórico

Julian Rodrigues: “Entender o que aconteceu é o primeiro passo para reorganizar a esquerda e preparar a resistência”

É útil e divertido repercutir e explorar as trapalhadas, denúncias e quetais contra a família Bolsonaro. Começar a desgastar a imagem de homem honesto e impoluto do presidente eleito. Toda e qualquer brecha merece ser aproveitada.

Contudo, porém, todavia: sem cultivar ilusões. Sofremos (os democratas, progressistas, socialistas) uma derrota estratégica. Será preciso um enorme esforço intelectual para entender o que aconteceu e formular perspectivas novas, pensando no médio e longo prazo.

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O Brasil entrou em um novo período, um novo ciclo histórico. Mudou tudo.  Quem ganhou as eleições não foi um Alckmin, ou mesmo um Aécio, ou Amoedo. Pela primeira vez em nossa história, a extrema direita chegou ao governo pelo voto popular. Não elegemos um presidente conservador ou neoliberal. Nada disso.

Bolsonaro não se situa no campo da democracia burguesa, é outra coisa: um líder neofascista.

O golpe que começou em 2016 produziu a vitória do candidato do PSL. Lula foi preso e impedido de se candidatar porque venceria o pleito de 2018. Nunca nos esqueçamos disso. Foi uma disputa eleitoral manipulada desde sua origem.

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A direita e a centro-direita que derrubaram Dilma foram engolidas pelo neofascismo que elas mesmo impulsionaram para derrotar o PT. PSDB, MDB et caterva tiraram o monstro da jaula. E, posteriormente, foram devorados.

O pacto democrático-liberal de 1988 ruiu. Acabou. A Constituição hoje é mero quadro na parede. Causa constrangimentos aqui e ali, mas sua essência não mais impera.

Vivemos sob um “Estado de exceção em progresso”. Se depender deles, vão fechar o regime cada vez mais, testando a correlação de forças e os limites que eventualmente podem ser impostos pelo STF ou pela oposição da mídia, por exemplo.

É fato, entretanto. Não há mais uma democracia-liberal-burguesa no Brasil. Capitalismo e democracia se incompatibilizam cada vez mais, em todo o mundo.  E aqui, desde 2016, as regras do jogo foram descartadas.

Bolsonaro fará, se tiver força, tudo que prometeu. O programa de Guedes, ultra-neoliberal, vai ser implementando – simultaneamente ao desmonte das liberdades democráticas e dos direitos civis.

Derrotar o bolsonarismo levará algum tempo. Não podemos nos iludir.

O bloco de forças que foi vitorioso é diverso, mas poderoso, conta com amplo apoio dos EUA. E ganhou adesão popular.

A esquerda, os movimentos sociais, o PT e todo campo democrático-popular haverá de se reinventar. Carecemos de uma reorganização estratégica urgente.

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Recompor os laços com os pobres, re-construir a esquerda nas bases, no seio da classe trabalhadora, nas periferias, disputando concepções de mundo, fazendo pregação ideológica – sabendo que encontramos condições dificílimas.

Refazer nossas formas organizativas. Formar quadros e nuclear militantes. Girar nosso foco para a luta social e política-cultural-ideológica. Entender que a luta institucional não é mais o centro.

Vamos nos preparar. O governo que assume é autoritário, repressivo – vai criminalizar sindicatos, movimentos sociais e aumentará o cerco à esquerda partidária. Vão prender mais lideranças do PT. Vão perseguir líderes sociais.

Bolsonaro fará um governo sustentado em permanente luta ideológica, focando na mobilização de sua base social. Ou seja: o enfrentamento aos inimigos internos e os discursos de ódio seguirão firmes e fortes.

A população LGBTI, indígenas, negros, mulheres, jovens, lutadores sociais são focos prioritários de ataques. A educação e cultura, alvos de bombardeio intenso.

Moro, com superpoderes, será o líder da “polícia política” do bolsonarismo.  Perseguirá sindicalistas, líderes do MST, do MTST. Redobrará os ataques ao PT e à esquerda como um todo.

Portanto, não podemos ter nenhum tipo de ilusão.

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Não tem eleição de prefeitos em 2020 que mudará o cenário para melhor. Muito menos devemos apostar todas as fichas em 2022, acreditando que o bolsonarismo  vai cair.

A derrota do campo popular foi grande, imensa. Se relaciona com o cenário internacional de ascensão da extrema direita, da crise do capitalismo e dos movimentos do Império/Trump.

Será um período muito difícil, que vai durar um tempo razoável. Vamos ter que nos reinventar, re-aprender a fazer política pela base, com organicidade e conteúdo.

Ninguém solta a mão de ninguém.

Redes de solidariedade e apoio, aprendizados de novos métodos organizativos, segurança pessoal, segurança nas redes sociais, cuidado coletivo com nossa saúde mental, formação, nucleação, proteção das lideranças. Serenidade, resiliência, reflexão, estudo, captação de novos quadros, re-fazer e re-elaborar.

Atravessar o deserto é possível.

O mal não dura para sempre. Só que a gente vai ter que mudar. Seremos uma esquerda mais preparada, forte, enraizada, orgânica e combativa. Antes, temos de começar a estudar e compreender tudo que aconteceu.

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