Blog do Mouzar

17 de abril de 2017, 14h10

Viva o povo Waimiri-Atroari!

Tempos temerários!

Os trabalhadores urbanos e rurais não são os únicos brasileiros a perderem direitos adquiridos. Se os índios tivessem barbas, estariam com elas de molho. Não só não se fala mais em demarcação de terras indígenas, como avança a ideia governista de rever demarcações já feitas, abrindo terras indígenas atualmente demarcadas para o saqueamento por madeireiros e a entrega final a grandes fazendeiros.

Notícias sobre as intenções governistas e aproveitadores em geral sobre o trecho da BR-174 habitada pelos Waimiri-Atroari são pra lá de preocupantes. Estive em Roraima há alguns anos e encontrei um estado de que restam poucas áreas florestais, pois ele foi quase totalmente desmatado por madeireiras que cobiçam a praticamente única grande floresta que não puderam tomar e derrubar: a da reserva Waimiri-Atroari.

É interessante o comportamento da mídia em geral e de muita gente que tem bastante influência política e econômica. Quando ocorre uma seca que põe em risco o abastecimento de água, todos falam em preservação da floresta e outras coisas óbvias, sabendo que boa parte da água despejada pelas chuvas em São Paulo, por exemplo, vem da Amazônia. Com o desmatamento lá, há um desequilíbrio geral do clima e pode haver grandes “crises hídricas” como a que deixou os paulistanos apavorados há muito pouco tempo.

Mas, passada a crise, finge-se esquecer tudo que a causa. E volta o discurso de “meia dúzia de índios” ocupando milhares de quilômetros quadrados que “poderiam produzir alimentos”. Um argumento totalmente falso, pois o que acontece muitas vezes é que terras com alguns milhares de índios que são postos pra fora de seu território acabam sendo entregues a um fazendeiro que nem mora lá, apenas desmata ou queima e colocam lá umas milhares de cabeças de gado e uma ou duas famílias só para cuidar disso. Além de jagunços, claro. Uma grande extensão de terra ocupada por “umas centenas” de índios, no caso, passa a pertencer a um milionário só, que além disso é de fora e não tem o menor interesse em manter o seu habitat, como é o caso dos índios.

Costumo dizer aos que dizem que os índios não querem saber de trabalhar, que são preguiçosos e ocupam terras demais, que quanto mais “preguiçosos” e mais terras tiverem, melhor: é a garantia de que pelo menos o pedaço do Brasil que ocupam não será destruído. Isso, claro, quando não acontece de alguns líderes deles serem corrompidos por mineradoras, madeireiras ou por funcionários do governo que deveriam apoiá-los.

Terra cobiçada

Agora um dos assuntos que vão ser tratados como “absurdos” é sobre a BR-174, estrada que liga Manaus a Boa Vista (RR). A rodovia tem 780 quilômetros, dos quais 125 cortam a reserva Waimiri-Atroari. Esses povos indígenas têm um passado de lutas e enfrentamentos, foram quase extintos pela ditadura, chegando, em 1983, a sobreviverem pouco mais de 300 deles, de um total de cerca de 3.000 que existiam antes.

A reserva de 25,8 mil quilômetros quadrados foi demarcada em 1989 (governo Sarney), e começaram a se realizar lá muitas ações positivas nas áreas de saúde, educação, meio ambiente, produção, administração, documentação e memória. E os Waimiri-Atroari tornaram-se um exemplo de povo que soube e sabe evoluir sem perder sua cultura e seu modo de vida.

A ideia de implantar projetos econômicos de interesse de grupos econômicos poderosos vem principalmente do tempo da ditadura, que promoveu um verdadeiro genocídio lá.

Em 1968, tornou-se notícia cotidiana na imprensa um “massacre” de uma expedição mandada para lá. Comandada pelo padre italiano Giovane Carelli, a expedição visava oficialmente um contato pacífico com esses povos. Nove pessoas da expedição sumiram e depois acharam seus restos mortais. E o assunto foi tratado pela imprensa como uma prova da maldade dos índios.

Mas, para muita gente que estudou o assunto, a verdade é que o Padre Carelli foi mandado para uma armadilha, pelos militares interessados em justificar o extermínio dos índios e a tomada de suas terras. Segundo o livro “Massacre”, do Padre Silvano, um dos membros da expedição, chamado Paulo Mineiro, teria comandado outros brancos num ataque aos índios, com o propósito de fazer que os índios reagissem e atacassem o Padre Calleri e seu grupo.

Aí, o massacre da expedição serviu para justificar sucessivos ataques do exército, que mataram 2.500 dos três mil indígenas. O massacre teve o apoio do SPI (Serviço de Proteção aos Índios) e sua substituta, a Funai. O interesse nisso tudo era a construção de uma hidrelétrica e entrega de uma área bem grande para uma mineradora.

Vida sagrada dos povos e da floresta

Por que os Waimiri-Atroaria fecham a estrada à noite? Essa é uma pergunta que se faz constantemente.

Para asfaltar a estrada, em 1997, o governo fez um acordo com os índios, que diziam que a floresta e todos que moram nela (animais e humanos) têm o direito de dormir à noite. Então conquistaram o direito de fechar esse trecho que corta sua reserva às 18h30 e reabrir às 5h30.

Isso funcionou bem, em Roraima só ouvi queixas de gente interessada em se apoderar das terras e das florestas indígenas. Madeireiros olham aquilo como um desperdício. E nem são gente nascida em Roraima: na época, me afirmaram que todas as serrarias do estado eram de gente do Sul. Devastaram Roraima.

Essas pessoas sempre reclamam da “ideologização” das informações, achando que tudo tem uma visão de esquerda. Mas manipulam até mapas para ficar ao gosto delas.

Vi isso num Atlas do Estado de Roraima, se me lembro bem produzido pelo governo estadual e pela Federação do Comércio de lá. Numa página tinha um mapa mostrando o uso da terra no estado. Estão delimitadas nesse mapa as “áreas montanhosas de difícil exploração”, “áreas alagadas” (há extensas planícies alagadas que também não são muito atraentes para “exploração”), “terras do Ibama” (na verdade, áreas de preservação ambiental, mas classificadas como “do Ibama” tem um tom mais ideológico, provocativo), “terras da Funai” (que são as reservas indígenas, mas ideologizam também usando o termo “da Funai”) e, finalmente, “terras livres” (quer dizer, que se pode destruir à vontade).

Com base nesse mapa, fazem um discurso que restam poucas “terras livres no estado”, e que é necessário entregar reservas ambientais e indígenas a madeireiras e agronegociantes, geralmente vindos do sul.

Bem, num tempo em que se demarcou uma grande reserva indígena no norte do estado, à revelia dos arrozeiros e da mídia quase toda – processo em que o STF teve uma atuação louvável – não se falava muito abertamente na BR-174. Afinal, pode-se muito bem planejar viagens em que não seja necessário passar pela reserva indígena à noite.

Mas estamos num tempo de rever tudo quanto é direito que incomoda gananciosos que querem se apoderar de tudo e não deixar nem migalhas para quem não é da turma deles.

Então, é um tempo de discurso de que o fechamento noturno daquele trecho da estrada atrapalha a produção rural, a economia do estado e até o direito de ir e vir. Mas que ninguém se engane: por trás desse discurso, que certamente será encampado por boa parte da mídia (no caso dos arrozeiros, a TV Bandeirantes emitia regularmente editoriais exaltando o direito de propriedade deles e contestando o direito dos povos indígenas), dos ruralistas, dos madeireiros, das mineradoras e de outros tipos que encaram os povos indígenas como entraves ao “progresso”, o que há é muita cobiça.

Para quem só se interessa pelo lucro, que se dane o clima, a água, o solo… Esse tipo de gente acha que não precisa de nada disso, pode acabar com tudo. Sendo rico, pode procurar outros lugares saudáveis para sua família viver (e destruir).

Foto: Funai

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