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21 de agosto de 2013, 14h21

Vulgar: um adjetivo feminino

A sociedade limita muito mais as pessoas do sexo feminino, classificando-as como vulgares ou não e sempre jogando com o modo como as mulheres encaram a própria sexualidade.

A sexualidade humana é um tema cercado de tabus e polêmicas. Apesar da nossa cultura ter sofrido inúmeras transformações importantes, ela ainda se mantém arcaica e hipócrita em muitos aspectos. Muitos acreditam que o sexo já não é um tabu como antigamente. No entanto, sob a pretensão da quebra de paradigmas, ainda resta a face perversa de um moralismo repressor, que limita e restringe a vivência sexual humana de acordo com uma suposta “vulgaridade”.

Mas o que significa “ser vulgar”? Parece que por não conseguir lidar com o fato de fazer sexo e gostar, a sociedade categoriza as pessoas de acordo com sua expressão sexual, de forma que qualquer pessoa que fale muito diretamente do assunto, é considerada vulgar. Mas é importante notar que essa palavra é usada principalmente para denominar mulheres, ainda que ocasionalmente seja usada para podar a sexualidade de outras pessoas. A sociedade limita muito mais as pessoas do sexo feminino, classificando-as como vulgares ou não e sempre jogando com o modo como as mulheres encaram a própria sexualidade.

Não seria errado concluir que o próprio conceito de vulgaridade está intimamente relacionado ao sexo feminino. Assim, é possível perceber que algumas das maiores mentiras do século XXI são relacionadas à idéia de que a liberdade sexual feminina já foi conquistada. Enquanto muitas pessoas acreditam que as mulheres já tomaram as rédeas da própria sexualidade, a realidade está bem distante. As mulheres não têm permissão para expressar qualquer intimidade com a própria sexualidade, ou mesmo falar sobre o assunto de forma direta e sem eufemismos; qualquer desobediência implica a idéia de que “não se dão valor”, uma afirmação extremamente cruel e infeliz que sugere que as mulheres não possuem valor até que se prove o contrário. A sociedade simplesmente não consegue suportar o sexo da mulher.

A cultura brasileira gera a impressão de evolução sexual quando apresenta corpos femininos como produtos, delimitando muito rigorosamente sua liberdade, mas oferecendo espaço para um certo grau de sensualidade que é interpretado por muitos como algo radicalmente diferente da repressão sexual de décadas passadas. Devido a um comodismo com a idéia de que a situação da mulher já evoluiu muito, a questão ficou estagnada, sem que se traga qualquer transformação essecial para erradicar o machismo. As mulheres são avaliadas por um padrão de “qualidade”, expostas nos programas de televisão, revistas e peças publicitárias exatamente como mercadorias aguardando interesse de compra. Não há outra analogia mais adequada: a objetificação da mulher dá a falsa sensação de empoderamento sexual ao mesmo tempo que agrada o público alvo consumidor sem que se sintam ameaçados por evidências de autonomia.

O que muitos não se dão conta é que a autonomia feminina assusta. O conservadorismo se articula intrinsecamente com a misoginia, de forma tal que é empregada muito mais energia em controlar a sexualidade das mulheres do que a sexualidade dos homens heterossexuais. A sexualidade da mulher só é aceita quando se comporta de forma modesta e, assim, o axioma do “sexy sem ser vulgar” se naturaliza. É essencial compreender que essa naturalização não é apenas uma forma de reprimir a expressão sexual feminina, mas também uma maneira de puni-la. A liberdade sexual feminina ainda não foi plenamente conquistada e muito precisa ser feito para que se torne uma realidade. Não há liberdade se sua existência está condicionada a servidão.

É imprescindível que a misoginia seja extinguida para que a sociedade aprenda a lidar com o sexo de forma madura, tolerante e responsável. A idéia de que sexo é algo de que se deve ter vergonha, nojo ou rejeição causa inúmeros problemas emocionais e psíquicos, além de reforçar a naturalização da misoginia. Precisamos rever o desconforto que as várias expressões do sexo causam e buscar as implicações sociais dessa sensação. A sociedade tem o dever não somente de gerar políticas públicas que valorizem e efetivem a educação sexual, mas também possibilitar discussões que nutram novas mentalidades. Só assim será possível romper com valores arcaicos e repressores e garantir os Direitos Humanos de todas as mulheres.


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