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08 de fevereiro de 2012, 05h04

Wando (1945-2012): adeus a um gigante pioneiro e sedutor

Capa do primeiro LP de Wando, de 1973

Morreu hoje, aos 66 anos, na CTI do Biocor de Nova Lima, Minas Gerais, um gigante da música brasileira: Wando, compositor de algumas pérolas conhecidas por uma legião de brasileiros, cantor de extraordinários recursos técnicos, exímio violonista, pioneiro no desbravamento de uma série de temas tabu durante a ditadura – como a homossexualidade ou a organização popular nas favelas –, Wando foi conhecido, sobretudo, como um artista de palco. Quem viu ao vivo, não se esquece. A partir do final dos anos 70, quando dá a guinada melosa-romântica com a qual ficaria conhecido, Wando desenvolve uma persona inconfundível. Galã e sedutor, ele passava longe da figura do machão. Era pura delicadeza. Levava o público feminino à loucura, mas não provocava nos homens temor ou desconforto. Tinha um jeito suave de desarmá-los. Associado ao “cafona” ou ao “brega”, era reconhecido – por qualquer um que tivesse prestado um mínimo de atenção – como um artista no nível dos grandes da música brasileira popular.

Natural do arraial de Bom Jardim, em Minas Gerais, e registrado em Cajuri, ao lado da velha ferrovia Leopoldina, Wanderley Alves dos Santos cursou o ensino fundamental em Juiz de Fora e daí foi para Volta Redonda. Trabalhou como leiteiro, feirante, motorista de caminhão. Estudou violão clássico, mas abandonou-o quando viu que o queria mesmo era “tocar para as moças”. Começou a fazer canções românticas e passou por uma etapa comum na época, os conjuntos de baile. Quando a música passou a “atrapalhar” na feira, Wando se mudou para Congonhas do Campo, em Minas Gerais, onde ficou durante cinco anos e pela primeira vez ganhou dinheiro com música, num grupo chamado “Escaravelhos”. Ainda em Congonhas, ele compôs o seu primeiro sucesso, que depois seria gravado por Jair Rodrigues: “O importante é ser fevereiro”, e logo depois se mudou para o Rio de Janeiro, levando emprestado, sem avisar, o violão de um amigo.

A passagem rápida pelo Rio não deu certo, e o começo mesmo viria em São Paulo. Hospedado num hotel popular na Rua Timbiras, ele conheceu um dentista que o apresentaria a Jair Rodrigues. Jair se apaixona por “O importante é ser fevereiro” e trinta dias depois, Wando era sucesso nacional como compositor, na voz de Jair, e logo em seguida sucesso também como intérprete, com o compacto “Maria, Mariá”. Seu primeiro LP, de 1973, “Glória a Deus e samba na terra”, mostrava Wando de camiseta sem manga, cabelão black power e pose intimista com o violão. É uma das capas antológicas da época. Sucesso no carnaval de 1974, Wando já pôde comprar seu primeiro carro, um Opala vermelho. Voltou a Congonhas para a devolver o violão do amigo, enquanto emplacava mais um sucesso como compositor, “Vá mas volte”, na voz de Ângela Maria.

Em 1975, Wando chegava ao ápice: “Moça”, tema da novela Pecado Capital, de Janete Clair, vendia nada menos que 1,2 milhão de cópias. Magnífica pérola pop, com uma linha melódica e um arranjo que deixavam entrever a formação clássica de Wando, mas que mostravam seu total domínio da forma canção, uma letra que timidamente anunciava o jeito Wando de lidar com temas difíceis, relacionados aos espinhos do amor (sei que já não és pura / teu passado é tão forte / pode até machucar), “Moça” foi desprezada como “cafona” pelos emepebistas da época, mas 37 anos depois ela ainda é cantada não só no Brasil, mas em outras latitudes, como se vê neste show de Wando em Maputo, Moçambique.

Em 1977, Wando desbravou novo território, com a composição “Presidente da favela”. Ela rendia homenagem ao líder comunitário Dalvino de Freitas, que impressionou Wando durante uma de suas participações no programa de Aírton Rodrigues, na TV Tupi: que sirva de exemplo / a todas as favelas brasileiras / arranjem um presidente / de boas maneiras / que a vida lá no morro será bem melhor. A letra jogava com um duplo sentido: homenageava o “presidente da favela”, mas subrrepticiamente mostrava a ausência de um presidente como aquele – da favela – no país. Quando se fala de protesto político na música dos anos 70, em geral pensamos na MPB intelectualizada. Mas nenhuma canção de Chico ou Caetano teve, sobre as formas de organização das comunidades urbanas mais pobres, o impacto que teve “Presidente da favela”, de Wando.

Mais pioneirismo viria em 1978. Wando ainda não era conhecido como “obsceno”, mas a canção “Emoções” foi uma das primeiras da época a falar abertamente de homossexualidade masculina, logo depois do desbravamento do tema realizado por outro artista considerado “cafona”, Agnaldo Timóteo. A letra de “Emoções” (a lua iluminou teu corpo / moreno bonito pra me provocar) não deixava dúvidas, era explícita quanto ao homoerotismo, e a canção por pouco não foi censurada. O pioneirismo de Wando no tratamento tanto da organização popular na favela como da homossexualidade masculina passaram completamente desapercebidos pelos estudiosos de música brasileira, sempre dispostos a privilegiar a MPB intelectualizada, até ser notado por Paulo César de Araújo, no seu grande livro Eu não sou cachorro, não: Música popular cafona e ditadura militar (Record, 2002).

Capa do disco de Wando de 1988

Nos anos 80, quando começaram a associá-lo ao rótulo de “obsceno”, Wando fez o que faz todo grande artista: apropriou-se do rótulo redutor e reinventou-o, trazendo-o para o seu terreno e conferindo-lhe mil outros sentidos. Compôs e gravou seu grande sucesso, “Fogo e Paixão”, e percebeu, segundo suas palavras, que se você virar uma calcinha de cabeça para baixo ela se transforma uma tenda. O disco Tenda dos Prazeres faz enorme sucesso e os shows de Wando se converteram em verdadeiras apoteoses de liberação simbólica feminina. É um fenômeno único na música popular. Nas palavras do próprio Wando: Na verdade, quem fez a minha coleção de calcinhas, nem fui eu, foram as mulheres que faziam questão de jogar suas calcinhas no palco durante meus shows… Os homens acabam percebendo que sou um aliado deles e não um inimigo. Acabam aprendendo com as dicas que dou. Mulher adora ser chamada de gostosa. Sempre. Já para chamar de safada você tem que saber o momento certo.

Folclorize-se o quanto se quiser as histórias com calcinhas, mulheres infláveis, sorteios de entradas para motéis e receitas de sedução. Wando não se importaria – ele jogava com isso. Mas não se esqueça também de que morreu hoje um gigantesco artista, uma enorme figura daquela forma de arte que é o nome do nosso ser, nosso único e verdadeiro passaporte para a eternidade: a música brasileira popular.

Vai na fé, Wando. Obrigado por tudo.