Urbanidades

01 de fevereiro de 2017, 17h13

Welcome to bullying capitalism!

Trump vai continuar sua estratégia de bullying, gritando com os mais fracos (no caso imediato mexicanos e muçulmanos) e afinando para os mais fortes: Wall Street, indústria bélica, China e Russia.

No meio de tanto horror com os primeiros atos de Donald Trump, acrescentado de um pinguinho de esperança no ressurgimento da esquerda nos EUA, vale revisar alguns textos recentes que jogam luz sobre o que está acontecendo no hemisfério norte.

Primeiro ponto: capitalismo versus democracia

Naomi Klein, autora de livros importantes que relacionam mudanças climáticas à crise capitalista vai direto ao ponto: a eleição de Trump revela que as mega-corporações não precisam mais do verniz democrático para exercerem seu poder e deram um golpe eleitoral (com ajuda dos russos, do FBI e dos próprios democratas complacentes) para exercer o poder diretamente. Este deslocamento começa lá atrás nos anos 80 com a crescente influência das corporações na política e chega ao clímax (ou ponto de ruptura) com Trump. O ministério do bilionário farsante é composto de CEOs. Executivos da Exxon, da Goldman Sachs e de cadeias de fast-food são respectivamente ministro de relações exteriores para cuidar do petróleo, ministro da fazenda para cuidar do dinheiro e ministro do trabalho para cuidar do salário mínimo.  O objetivo desta turma é o capitalismo de desastre: quebrar qualquer forma de regulação e transparência para extrair cada centavo de uma terra arrasada. Entendeu? Imagine o Eike Batista sendo eleito e chamando para o ministério os diretores da Odebrecht e da Samarco.

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Segundo ponto: capitalismo versus humanismo

Achille Mbembe vai ainda mais fundo nesta ruptura e defende que não foi só a ideia de democracia que está sendo descartada, mas o humanismo inteiro. Segundo Mbembe, o deslocamento entre capitalismo e democracia significa uma ameaça ao próprio humanismo modernizador que domina o mundo desde o século 18. Valores como razão e ciência são abandonados sempre que se opuserem as regras de mercado e propriedade. Lendo esta questão com as lentes dos estudos pós-colonialistas e a crítica ao eurocentrismo (ou OTAMcentrismo dos últimos 70 anos) percebo que existe aqui um esgotamento do modelo humanista Europeu que se por um lado nos deu maravilhas tecnológicas e democracia, por outro lado não soube expandir o empoderamento para além do homem, branco, hétero, anglo-parlante. O abandono do humanismo, que diga-se de passagem não começou nem com Trump nem com Brexit, vai deslocar o eixo ético do mundo para o leste. Vale prestar atenção nos valores asiáticos que vão ocupar este espaço como bem nos lembra Kishore Mahbubani.

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Terceiro ponto: Bullying capitalism

Donald Trump é um bully. Isto todos sabemos e mais ainda aqueles que como eu foram vítimas de bullying na juventude. Todo bully na verdade é um inseguro que procura as vulnerabilidades dos outros para esconder as suas próprias. E todo bully se importa principalmente em parecer forte, nunca em ser forte de verdade. Esta é a essência do capitalismo de Donald Trump. Interessa parecer que venceu, não vencer de verdade. Este casamento em capitalismo e estratégia bullying também não começou com Trump, ele é apenas o retrato mais crú e cruel de uma sociedade (e não me refiro aqui apenas aos norte-americanos, somos todos assim no ocidente) que valoriza atitudes machistas, misóginas, truculentas e violentas, identificando-as como a postura de líder, de um macho alfa. O capitalismo funciona assim, e antes que me acusem de ser extremamente parcial o comunismo também funcionava assim, e antes deles a monarquia funcionava assim. Somos primatas sofisticados. O capitalismo bullying identifica uma fraqueza no competidor e explora esta vulnerabilidade com campanhas de difamação que tem o poder de derrubar cotações de bolsa, esta moeda virtual que se constrói com narrativas e expectativas e que tem muito pouco a ver com produtividade e rentabilidade real. A Petrobras e a Embraer entendem bem este tipo de bullying.

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Juntando os três conceitos anteriores temos uma moldura para entender os tempos de Trump. As empresas não terão nenhum pudor de empurrar sua agenda, seja ela qual for, independente na vontade da maioria das populações. O eixo central do mundo se deslocou rapidamente para o oriente, com a China e a Russia crescendo e a Inglaterra e EUA perdendo influência muito rapidamente. Trump vai continuar sua estratégia de bullying, gritando com os mais fracos (no caso imediato mexicanos e muçulmanos) e afinando para os mais fortes: Wall Street, indústria bélica, China e Russia.

Agora já imaginaram que oportunidade perdeu o Brasil se tivesse reforçado o Mercosul e continuasse afinado com os BRICS? Peru, México e Chile tomaram um enorme tombo com o cancelamento do tratado de livre comércio do pacífico e cairiam no colo do Mercosul. China, Índia e Russia estão mais empoderadas do que nunca e serão os baluartes da ordem mundial das próximas décadas. Mas o Brasil, ah o Brasil está preocupado em prender o Lula…..

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