Quilombo

por Dennis de Oliveira

03 de abril de 2018, 23h54

Winnie Mandela, uma mulher que brilha no Orùn

Mulheres casadas com grandes lideranças sempre são tratadas como “esposas do grande líder”. Espera-se que a sua atuação seja apenas a sombra da história do seu companheiro. Talvez esta tenha sido a expectativa – frustrada – de muitos que criticam Winnie Mandela, esposa de Nelson Mandela, falecida aos 81 anos no último 2 de abril.

Certa vez, Winnie afirmou: “Não sou produto de Mandela, sou produto das massas do meu país e produto do ódio do meu inimigo”. É fato que Winnie Mandela teve papel fundamental na resistência contra o apartheid organizando a população negra nas ruas, enquanto que Nelson Mandela esteve preso por mais de 27 anos. E é fato também que, por conta desta sua ação e sua inegável liderança, tenha sido brutalmente perseguida pelo regime apartheid.

Winnie Mandela nasceu em 26 de setembro de 1936 na aldeia de Mbongweni, Bizana , no Transkei. Era a quinta de nove filhos. Seu pai era professor de História e também participou do governo de Transkei durante o regime do apartheid que concedia “autonomia” aos chamados bantustões com o objetivo de garantir a supremacia branca nas regiões mais ricas.

Em 1945, quando tinha apenas nove anos, Winnie teve sua primeira experiência do que as restrições e injustiças do racismo e do apartheid significavam na África do Sul. Acabavam de chegar notícias em Bizana de que a Segunda Guerra Mundial terminara e as celebrações tinham sido agendadas. Junto com seus irmãos, Winnie implorou a seu pai que comparecesse e, eventualmente, ele aceitou a demanda deles. No entanto, ao chegar à prefeitura, descobriu-se que essas celebrações eram “apenas para brancos” e as crianças eram obrigadas a ficar do lado de fora com o pai, enquanto a população branca desfrutava da alegria interior. Aquilo foi um golpe profundo para Winnie, e depois disso ela cresceu cada vez mais sensibilizada para a desigualdade do mundo ao seu redor.

Outro episódio marcante na vida de Winnie. Em Bizana, havia uma grande população negra, mas todas as lojas e serviços eram de propriedade dos brancos. Um dia, Winnie viu uma cena em uma loja com o pai, na qual um negro estava agachado e tirando pedaços do pão para alimentar sua esposa enquanto ela amamentava o bebê. De repente, um jovem branco – o filho do dono das loja, veio em direção a eles e gritou que não queria negros fazendo bagunça em sua loja. Ele chutou a comida e os forçou a sair da loja. Winnie observou a cena estupefata. Ela não conseguia entender como esse homem podia se permitir ser tratado dessa maneira, ou por que seu pai, que era um moralista tão convicto, não iria intervir onde sua moralidade tão obviamente exigia que ele o fizesse.

Aos 17 anos, em 1953, Winnie sai do Transkei e vai para Johanesburgo para estudar na Escola de Serviço Social Jan Hofmeyr, cujo patrono era Nelson Mandela. Concluiu sua graduação em Serviço Social em 1956, como a melhor aluna da sua turma e, por conta disto, recebeu a oferta de uma bolsa de estudos para os Estados Unidos. O desejo de desenvolver sua atuação como assistente social na África do Sul pesou mais. Assim, ela desistiu da oferta de estudo nos EUA e ingresso como assistente social no Hospital Baragwanath, em Joanesburgo, sendo a primeira profissional de nível superior negra nesta instituição.

Esta atuação como assistente social foi o coroamento da sua formação política e o início do seu ativismo. Conheceu, neste período, Adelaide Tsuku, que futuramente casaria com um dos grandes líderes do Congresso Nacional Africano, Oliver Tambo. O seu talento profissional levou-a a se tornar uma celebridade na cidade, o que lhe rendeu prestígio para denunciar os estudos que produziu sobre as desigualdades sociais e raciais na África do Sul. Por isto, a sua formação e ativismo políticos foram anteriores ao seu relacionamento com Nelson Mandela que se inicia em 1957 quando eles se conhecem. Em 1958, eles se casam.

Winnie Mandela enfrentou todas as dificuldades de um casamento com uma liderança política perseguida pelo regime. Todo o seu casamento foi marcado por fugas, perseguições políticas e a prisão por mais de 27 anos do seu marido. Enquanto Nelson Mandela resistia ao apartheid na cadeia, junto com outros lideres do CNA, Winnie teve papel fundamental na organização da resistência nas bases, liderando protestos e, por conta disto, sendo por diversas vezes presa e torturada como aconteceu em 1958 (quando foi presa com mais de mil mulheres que participaram da marcha da Liga das Mulheres do CNA) e em 1967, quando ficou presa por quase 20 dias, sem qualquer acusação formal, sendo retirada do seu lar e afastada dos seus filhos. Por diversas vezes, o governo do apartheid emitia ordens de restrição de movimentos de Winnie Mandela, temeroso da liderança que ela exercia junto à população negra.

Importante ressaltar que Winnie Mandela, em todo este período, deu a luz dois filhos, praticamente teve que cuidar deles sozinha e seus encontros com o marido Nelson Mandela ocorria esporadicamente e às escondidas. Sua família também não teve melhor sorte. Sua madrasta teve o corpo queimado em uma ação paramilitar, seu pai teve a fazenda invadida e saqueada. Foi obrigada a mandar os filhos para a Suazilandia, pois as escolas negavam a matrícula deles.

Já morando em Soweto e tendo participado das manifestações que levaram ao massacre de 1976, Winnie Mandela em determinado momento faz a seguinte fala: ““juntos, de mãos dadas, com nossas caixas de fósforos e nossos colares, vamos libertar este país”. Colar aqui significa a técnica utilizada pelos jovens ativistas de Soweto de executar os traidores da causa negra queimando-os com pneus incendiados. Esta frase de Winnie, bem como outras atitudes que tomou durante este processo de luta contra o apartheid, sustentou certa tese de que ela, ao contrário do seu marido Nelson Mandela, era extremamente violenta e não pregava a paz.

Entretanto, é importante para compreender as posições de Winnie Mandela o fato de que, enquanto boa parte da cúpula do CNA estava presa e passou, de dentro da prisão, a estabelecer uma estratégia de resistência e negociação para o fim do apartheid, ela era o que o próprio site do CNA chamou de “soldada na luta”. Construiu a resistência nas ruas, nas bases, enfrentando toda a sorte de violência imputada a ela, seus filhos, familiares e suas companheiras e companheiros na trincheira. Sua história não está vinculada apenas a do seu marido, Nelson Mandela, mas a luta contra o apartheid nas ruas em que ela teve papel fundamental. Negar isto é puro machismo, desconsiderando o papel que uma mulher teve nesta importante luta na África do Sul. Criticar suas posturas taxando-as de violentas é não entender a barbaridade que foi o apartheid na vida dela.

A população negra em todo o mundo e aqueles que verdadeiramente lutam contra as opressões estão de luto. Winnie Mandela agora vai brilhar no Orùn.

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