23 de outubro de 2018, 15h39

“ZapGate” é o último ato da guerra híbrida

Cinicamente a Globo chama de “guerra virtual” para encobrir o caráter assimétrico da batalha do disparo de milhões de notícias falsas com apoio empresarial pela campanha de Jair Bolsonaro - o "ZapGate"

Em 2015 esse humilde blogueiro esteve em uma escola estadual ocupada em Taboão da Serra/SP para dar uma das inúmeras aulas públicas que eram ministradas então naquele momento em escolas no estado. Lá percebi uma nítida diferença geracional: aqueles jovens não viam mais TV ou quaisquer mídias de massas – informações e entretenimento eram buscadas por eles diretamente na Internet, redes sociais e blogs.

Embora curiosos sobre a política dos meios de comunicação no Brasil, para eles tudo não passava de História do Brasil: já estavam no futuro, com uma organização horizontalizada através do WhatsApp e informações buscadas em blogs.

O atual escândalo eleitoral brasileiro do “zapgate” (ou da “guerra virtual” como cinicamente a Globo mancheteia para encobrir o caráter assimétrico dos milhões de notícias falsas disparadas nas redes sociais nesse verdadeiro caixa 2 digital da campanha de Bolsonaro) apenas confirma a pro-atividade histórica da extrema direita – rapidamente compreendeu a progressiva  irrelevância das mídias de massa em tempos de convergência tecnológica.

A extrema direita sempre esteve na vanguarda das estratégias de propaganda e comunicação. Não é por menos que o fascismo sempre foi o fantasma que ronda a modernidade: flerta com a arte (Futurismo), com a comunicação (Hitler e Mussolini, fãs do cinema e imitadores dos canastrões do cinema mudo) e a tecnologia – a blitzkrieg nazista foi a primeira guerra tecnológica da História.

Rapidamente compreendeu o fim das estratégias hipodérmicas de propaganda no pós-guerra. Depois que as pesquisas da chamada “Mass Communication Research” de Paul Lazarsfeld nos anos 1940 nos EUA apontaram a importância da influências dos fluxos sociais na recepção da comunicação (a teoria do “two-step-flow” – são os líderes de opinião de grupos e comunidades que determinam a aceitação dos conteúdos propagados pela mídia), a extrema direita abandonou o modelo clássico de propaganda.

Como demonstraram os golpes políticos no Chile, Argentina e Brasil nos anos 1960-70, a atuação combinada de propaganda política massiva com influência comunitária das donas de casa e lideranças de caminhoneiros rapidamente desestabilizou governos – por exemplo, no período que antecedeu ao golpe no Chile em 1973, quando o marido voltava para casa depois das reuniões sindicais, recebia a contrapropaganda da esposa: as contra-informações da extrema direita compartilhada no cotidiano em feiras-livres, mercados e encontros sociais – leia MARCONDES FILHO, Ciro. O Discurso Sufocado, Loyola.

Obama e a Web 1.0

Web 1.0 e 2.0

Em tempos de web 1.0, o sucesso da campanha eleitoral do liberal Barack Obama em 2007 e 2008 (desde o início da disputa das primárias, quando superou Hillary Clinton), aproveitou ao máximo as possibilidades da Internet – pequenas contribuições financeiras via Internet e o apoio de jovens blogueiros e influenciadores digitais.

Agora vivemos na Web 2.0 das redes sociais e pesquisas mercadológicas baseadas na mineração de big data. A estabilidade sociológica de líderes de opinião da blogosfera foi substituída por padrões invisíveis das plataformas tecnológicas. Na política, o caso do Brexit foi o laboratório daquilo que seria replicado na eleição de Donald Trump nos EUA. E a atual guerra híbrida das diversas “primaveras” pelo planeta, terminando na experiência brasileira do “avatar” Bolsonaro, o laboratório de aperfeiçoamento tecnológico.

Enquanto isso, mal a esquerda conseguiu compreender o porquê da eficácia da propaganda clássica hipodérmica nas mídias de massas do fascismo histórico. Tudo o que faz é esboçar formações reativas: negação, wishfull thinking e a tradicional “síndrome de Brian” – relativo ao filme do grupo de humor Monty Python A Vida de Brian: a estratégia paralisante da “Frente Popular da Judéia” contra o imperialismo romano, mais preocupada em fazer propaganda auto-indulgente do que enfrentar o oponente em seu próprio território: a psicologia de massas – clique aqui.

Enquanto Fernando Haddad e o PT se agarram ao púlpito dos debates e protestam contra a recusa de Bolsonaro debater propostas na TV (mesmo porque o “coiso” não as tem), a extrema direita nada de braçadas no mar de big data e da propaganda em rede com o apoio de inteligência do estrategista político da campanha de Trump, Steve Bannon. E o dinheiro não só do caixa 2 brasileiro: também dos fundos da guerra híbrida norte-americana (NSA – agência norte-americana de inteligência) como afirma o analista político Andre Korybko – clique aqui.

Trump e Big Data

O que é comunicação?

Não existe comunicação a posterioriA posteriori é Semiótica, Linguística ou Sociologia da Comunicação – o estudo da comunicação depois que ela ocorreu. Comunicação é o aqui e agora, efeito performático, o fenômeno, o acontecimento. A extrema direita rapidamente compreendeu que a comunicação não é conteudista, propositiva. É cognitiva – criação de climas de opinião, percepções, atmosferas. Criar bombas semióticas que destruam a factualidade, crie polaridades e reforcem predisposições– já nos anos 1940, Lazarsfeld apontava a importância do complexo de predisposições dos receptores: memória seletiva, exposição seletiva etc. Simplesmente as pessoas ouvem o que querem ouvir; veem o que querem ver e entendem o que querem entender.

O fenômeno de bolhas de recepção já havia nas mídias de massas. O que as redes sociais fizeram foi amplificar algoritmicamente essas bolhas com o efeito-filtro. Enquanto a esquerda fica prisioneira na sua bolha de convertidos, minerando big data a extrema direita navega por entre as bolhas localizando líderes de opinião efêmeros (não mais estáveis como na web 1.0) para disparar fake news. Ou cria falsos perfis de líderes de opinião para formar redes mutantes de influência.

O primeiro efeito dessas bolhas na Internet é a indiferenciação público/privado e a erosão do que um dia se chamou de esfera pública: opiniões e críticas são recebidas como se estivéssemos em espaços privados. Por isso são tratadas de forma descuidada, chapadas. Quase sempre com textos adjetivados, sem nenhuma preocupação factual ou rigor lógico ou intelectual.

Erodida a factualidade, cada bolha torna-se auto-referencial, sem possibilidade de criar diálogos com bases comuns. Qualquer coisa é justificável ou comprovada com quaisquer números distorcidos. Seria o paraíso dos sofistas da Grécia da Antiquidade: “o homem é a medida de todas as coisas”, diziam cinicamente Protágoras e Giórgias. Qualquer argumento pode ser refutado por outro argumento desde que possa parecer verossímil.

Sem qualquer base comum (a factualidade) em um diálogo, cria-se facilmente a polarização amigo/inimigo – a despolitização assentada na clivagem de qualquer diálogo racional possível. Mais uma vez os sofistas da Antiguidade vibrariam: redes sociais criam falsos dilemas, de caráter geral e radical, ocultando que na realidade existem mais opções. Para o Brasil, ou é a Venezuela ou a Goldman Sachs Group.

Não é para menos que as causas culturais, identitárias e de costumes se sobrepuseram às discussões político-ideológicas ou de economia política: nessas questões a lógica binária da extrema-direita é reforçada, destruindo qualquer discussão política ou racional.