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08 de fevereiro de 2013, 14h20

Žižek: Menos ação, mais imaginação política

Mesmo críticos renomados e respeitados do capitalismo moderno resistem à questão, “então nós vimos o quão destrutivo e corrupto é este sistema, mas o que diabos irá substituir o capitalismo?”

Mesmo críticos renomados e respeitados do capitalismo moderno resistem à questão, “então nós vimos o quão destrutivo e corrupto é este sistema, mas o que diabos irá substituir o capitalismo?” Do Adbusters, traduzido por Natália Mazotte, do Canal Ibase. O filósofo esloveno Slavoj Žižek tem sido aclamado como “o filósofo mais perigoso do Ocidente” por seus fervorosos e afiados insights sobre a crise existencial do capitalismo e a destruição ecológica. Assim, ele se tornou uma espécie de mascote da resistência no Ocidente. Suas proclamações acirradas estão sempre à mão no bolso de ativistas, Occupiers e semelhantes, para os quais uma...

Mesmo críticos renomados e respeitados do capitalismo moderno resistem à questão, “então nós vimos o quão destrutivo e corrupto é este sistema, mas o que diabos irá substituir o capitalismo?”

Do Adbusters, traduzido por Natália Mazotte, do Canal Ibase.

O filósofo esloveno Slavoj Žižek tem sido aclamado como “o filósofo mais perigoso do Ocidente” por seus fervorosos e afiados insights sobre a crise existencial do capitalismo e a destruição ecológica. Assim, ele se tornou uma espécie de mascote da resistência no Ocidente. Suas proclamações acirradas estão sempre à mão no bolso de ativistas, Occupiers e semelhantes, para os quais uma citação de Žižek é como uma carta na manga tática ou filosófica. Alguns dos fãs de Žižek ficaram estarrecidos no ano passado, quando ele, no meio de seu habitual discurso anti-capitalista de tirar o fôlego, esclareceu sua posição: “Não aja. Apenas pense.”

Esta é uma referência direta às teses de Marx sobre Feuerbach, onde ele notoriamente enaltece os filósofos como agentes de mudança revolucionária: “filósofos têm apenas interpretado o mundo de muitos modos; o ponto é mudá-lo”. No ano passado, Žižek modificou a frase de Marx, “no século 20 nós tentamos mudar o mundo de forma muito rápida, chegou a hora de interpretá-lo de novo, de começar a pensar”.

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Mesmo críticos renomados e respeitados do capitalismo moderno resistem à questão, “então nós vimos o quão destrutivo e corrupto é este sistema, mas o que diabos irá substituir o capitalismo?” Em resposta a isso há tanto confusão quanto desdém, ou proselitismo e vagos comentários moralistas. A prevalência deste tipo de resposta comprova o argumento de Žižek segundo o qual nós não passamos tempo suficiente pensando criticamente e, portanto, a nossa capacidade de articular alternativas é terrivelmente limitada e causa embaraço. No entanto, Žižek elogia o Occupy Wall Street por trazer vida de volta ao estagnado imaginário político.

(Foto: Mario Ruiz/Corbis. Publicado no site da Adbusters)

Para Žižek, Occupy assinalou um momento importante de crítica e recusa simultâneas: “A mensagem do Occupy Wall Street é ‘eu preferia não jogar o jogo existente’. Há algo fundamentalmente errado nesse sistema, e as formas existentes de democracia institucionalizada não são fortes o suficiente para lidar com os problemas”. Contudo, explica Žižek, os occupiers não têm a resposta, nem ele próprio. E está tudo bem, porque Occupy foi um passo importante, uma “limpeza de mesa” necessária antes de nós (coletivamente) começarmos a articular uma alternativa – antes de começarmos a pensar de novo.

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“Não entre na pressão pseudo-ativista de fazer algo. ‘Vamos fazer isso, protestar’ e assim por diante”, Žižek exclama, “o momento é de pensar”.

Mas Žižek aqui não está promovendo a análise de sofá dos defeitos do capitalismo. Parte do problema reside no âmbito da cultura (ou seria do culto) de crítica que define a filosofia européia em si. A crítica é necessária, a “limpeza da mesa”, mas este é apenas o primeiro passo de um processo que visa à revolução. Žižek é mais sensível do que qualquer outro a esse obstáculo, e talvez isso seja parte da razão pela qual ele é atraído para o marxismo. “Meras descrições do estado das coisas, não importa quão precisas sejam, falham em gerar efeitos emancipatórios”, explica ele.

Estes efeitos emancipatórios são terrivelmente necessários agora que nosso sistema capitalista global está naufragando e simultaneamente se aproximando de um precipício apocalíptico e climático. Como é o caso com a revolução em si, “crítica”, “filosofia” e “pensamento” também devem passar de uma fase incisiva, de crítica destrutiva (que abre caminho) para uma criativa, a fim de ser verdadeiramente emancipatória. Nós vivemos em uma época em que o capitalismo está quebrando, onde um apocalíptico ponto zero está se aproximando. Precisamos ressuscitar e reviver nossas imaginações políticas, e pelo menos começar a imaginar o que as alternativas podem parecer.

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